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quinta-feira, janeiro 26

O CHAPÉU E A JIBÓIA - Engoliram os meus sonhos


"O problema é que quando ele mostrava este desenho aos adultos, todos viam apenas um chapéu, então ele refez este desenho, com um corte lateral na jibóia para que fosse possível ver o elefante e lamentou consigo mesmo o fato de os adultos sempre precisarem de explicações detalhadas." 
Antoine de Saint-Exupéry - capítulo 1º do livro O Pequeno Príncipe.


É amigos parece que as jibóias ainda engolem elefantes. O Elefante simboliza aquela criança grandiosa, com todos os atributos de inteligência com que nascemos. A jibóia representa adultos que por sua vez esqueceram como é ser uma criança. A jibóia engolindo representa a violência pelo qual muitos de nós passamos na infância, e a longa digestão representa toda uma jornada de conflitos interiores, revoltas e fracassos relacionado a falta de carinho compreensão não só na família, mas na escola com professores, diretores de escolas, amiguinhos etc...

Quando eu era pequeno também desenhava muito bem, mas fui ignorado, hoje em dia não sei desenhar. Lembro que sentia muito prazer em fazer isso. A jibóia engole o elefante, Os adultos minam a genialidade e a criatividade da criança através de conceitos negativos referente a conflitos pessoais de experiências negativas; "É uma bola de neve”.

"As pessoas grandes aconselharam-me deixar de lado os desenhos de jibóias abertas ou fechadas, e dedicar-me de preferência à geografia, à história, ao cálculo, à gramática. Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma esplêndida carreira de pintor. Eu fora desencorajado pelo insucesso do meu desenho número 1 e do meu desenho número 2. As pessoas grandes não compreendem nada sozinhas, e é cansativo, para as crianças, estar toda hora explicando."

 Muita gente passa a vida toda sendo digerido ou digerindo lembranças negativas de fatos ocorridos em casa, na rua ou na escola. Os adultos são os educadores, mais quem serão os educadores dos adultos com suas crianças interiores estraçalhadas pela violência? Os presídios estão cheios dessas crianças que não conheceram amor, respeito, paciência e amabilidade, ao contrário foram engolidos pelas jibóias da vida e que continuam a fazer digestão... 

Todos os dias vemos pessoas infelizes. A televisão " Essa babá eletrônica", que centraliza e generaliza toda uma cultura de ódio, violência e catástrofes. Até os desenhos animados são de altíssimo nível de violência, 
com pistolas e espadas com muito sangue e ódio. Vemos muitos jovens em tenra idade vivendo a noite e dormindo de dia, muitos nas ruas ou na frente do computador. A violência dos filmes, a banalização da família como núcleo e célula da sociedade, a banalização das coisas simples da vida. 
Precisamos nos lembrar que para sermos adultos educadores, precisamos nos educar primeiro, precisamos de conhecimento e ajuda. aprender a aprender amar, mesmo que um dia não me senti amado. Se ainda não fui completamente digerido pela jibóia, sou capaz de ser mais feliz e mais amoroso(a) com os outros.


segunda-feira, março 14

esse tal de Virgulino....

Que eu gosto de cultura popular brasileira todo mundo já sabe...(tipo aqui [1] ,aqui [2] ,aqui [3] , aqui [4] e aqui  [5] ...srsrs) 

E quando o tema é Cangaço... ai eu AMO!

Sempre tive muita curiosidade sobre este tema cheio de singularidades, onde os homens faziam justiça por si mesmo, seja por vingança, por terra ou por motivos políticos...

Acrescentando a tudo isto, ainda tem todo o estilo do Cangaço, que me encanta taaaanto... a indumentária dos cangaceiros trazia uma rica carga simbólica... a roupa colorida e decorada servia de patente hierárquica no bando, despertava admiração na população e era copiada até pela polícia!

E como toda esta admiração pelo tema, fazia tempinho já que eu andava paquerando o belo livro “Estrelas de Couro: A Estética do Cangaço”, do historiador Frederico Pernambucano de Mello.

É daqueles livros que precisam ser lidos aos poucos, curtindo cada detalhe...para tirar o máximo proveito de tudo que tem lá, é daqueles livros que da até dó de folhear...de tão bonito que é... (rsrs, sou meio apegada a livros...como podem ver...)

 E só tenho uma coisa pra falar: foi uma ÓTIMA aquisição! Ele é enriquecido com 300 imagens e 160 fotografias de objetos de uso pessoal dos cangaceiros, a maior parte desses objetos é parte da coleção particular do autor e já foram expostos no Brasil e exterior.

Pernambucano, chamado por Gilberto Freyre de “mestre de mestres em assuntos de cangaço”, mergulha no universo desconhecido de sua cultura material, promovendo a leitura profunda do requinte e dos significados presentes nas peças autênticas de uso dos cangaceiros, a exemplo do signo-de-salomão, da cruz-de-malta, da flor-de-lis, do oito contínuo deitado, das gregas, de variações sublimadas da flora local, e das tantas combinações possíveis de que se valia o cangaceiro na construção de um traje que atendia à vaidade ornamental de seu brado guerreiro e a anseios bem compreensíveis de proteção mística.

Capitão Ferreira com sua Singer!
“Habitando um meio cinzento e pobre o cangaceiro vestiu-se de cor e riqueza. Satisfez seu anseio de arte, dando vazão aos motivos profundos do arcaico brasileiro. E viveu sem lei nem rei quase em nossos dias, deitando uma ponte sobre cinco séculos de história. Foi o último a fazê-lo com tanto orgulho. Com tanta cor. Com tanta festa” - Frederico Pernambucano de Mello


“Estrelas de couro, o livro que eu gostaria de ter escrito” –  Ariano Suassuna

  
->O leitor vai se extasiar diante dos enfeites dos cangaceiros, os desenhos e os bordados de suas mochilas, os vestidos das mulheres, de suas luvas, os lenços usados no pescoço, as alparcatas, suas cartucheiras, seus coldres, as perneiras, os bornais, obras em couro, em pano, em ferro e metais: punhais, facas e facões, joias, brincos, pulseiras...os panos bordados em belos coloridos.
Um belo livro, desses que pra gente ver, ler e acaricia.

sábado, março 5

Ser Brotinho

Ví esse texto no Tudo que eu queria e achei uma fofura!

 
 Ser brotinho não é viver em um píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.

Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.

É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar um dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês coloridos. É dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e natural. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.

Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento exato de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.

É telefonar muito, estendida no chão. É querer ser rapaz de vez em quando só para vaguear sozinha de madrugada pelas ruas da cidade. Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. É fumar quase um maço de cigarros na sacada do apartamento, pensando coisas brancas, pretas, vermelhas, amarelas.

Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite e sem roupa, completamente. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho gozado e bacanérrimo.

É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. É ter uma vez bebido dois gins, quatro uísques, cinco taças de champanha e uma de cinzano sem sentir nada, mas ter outra vez bebido só um cálice de vinho do Porto e ter dado um vexame modelo grande. É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.

Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão da festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado ballet e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gatinho magro que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue-jeans. Ter horror de gente morta, ladrão dentro de casa, fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. Eventualmente, ser brotinho é como se não fosse, sentindo-se quase a cair do galho, de tão amadurecida em todo o seu ser. É fazer marcação cerrada sobre a presunção incomensurável dos homens. Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. É policiar parentes, amigos, mestres e mestras com um ar songamonga de quem nada vê, nada ouve, nada fala.

Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.
Paulo Mendes Campos


-Eu também queria ser brotinho! =S

segunda-feira, fevereiro 25

Interessantíssimo!

O Casaco de Marx, PETER STALLYBRASS

Um livrinho super fino e mega interessante em que Stallybrass pensa a relação das pessoas com as roupas e as coisas em geral. No primeiro texto descreve as roupas como objetos que se moldam à memória. No segundo texto, persegue o casaco de Karl Marx - que era penhorado freqüentemente - enquanto escrevia o "Capital", refletindo sobre as relações complexas entre as coisas como objetos de uso, como objetos onde imprimimos marcas e que carregam nossa memória.

A discussão em torno do livro “O casaco de Marx”, é basicamente sobre o significado da roupa, o que ela pode representar e às lembranças que elas remetem.
A roupa é extremamente duradoura, podendo durar mais que o tempo de uma vida humana, passando por diversas gerações e recebendo significados diferentes a cada pessoa que a usa, esses podem ser marcas físicas na roupas, ou significados e lembranças sentimentais.

“...a mágica da roupa está no fato de que elas nos recebem: recebe nosso cheiro, nosso suor; recebe até mesmo nossa forma.” (pg. 13).

Importante ressaltar que a roupa que herdamos de nossos pais e parentes têm um significado emocional, uma ligação de carinho, memória visual, cheiro: além das marcas físicas e da história da moda, que determina o período em que ela foi criada. Enquanto as roupas de brechó, que são muito comercializadas atualmente, são adquiridas sem valor de memória, a não ser pela época em que foram criadas, usando na escolha dessa peças um valor estético.

“ Os corpos vêm e vão: as roupas que receberam esses corpos sobrevivem. Elas circulam através de lojas de roupas usadas, de brechós e de bazares de caridade. Ou são passadas de pai para filho, de irmã para irmã, de irmão para irmão, de amante para amante, de amigo para amigo.” (pg. 14).

Neste pequeno livro pode-se concluir que na relação roupa-pessoa, os dois saem marcados: a roupa sai com as marcas físicas, sentimentais; enquanto a pessoa sai marcada com significado específico que ela atribui à peça.



e você, tem alguma roupa ou objeto de grande valor sentimental? aposto que sim...
Casaco de Marx: roupas, memória e dor. Peter Stallybrass.(2004)


domingo, janeiro 27

A Garota das Laranjas

Nossa...há um bom tempo não passo por aqui...
fui pra praia e abandonei totalmente o blog!


Hj vou falar um pouco sobre um livro que li durante os dias que estive na praia: A Garota das Laranjas! O livro é de autoria de Jostein Gaarder, que também escreveu O Mundo de Sofia....


No livro... Georg Roed mal conheceu o seu pai, Jan Olav, que morreu de uma doença incurável quando o garoto não tinha nem 4 anos de idade. Porém, uma longa carta de despedida, escrita pelo pai poucos dias antes de sua morte, dá início a uma comunicação entre o presente e o passado. Na carta, que durante 11 anos ficou escondida no forro de um velho carrinho de bebê, Jan Olav se dirige a um Georg adolescente, mais apto a entender alguns assuntos que uma criança pequena não compreenderia. O garoto, ao ler as palavras do pai, descobre afinidades secretas que tinha com ele: uma certa curiosidade filosófica, o interesse pelas fotos tiradas pelo telescópio Hubble, e o olhar atento para o universo. Em meio a reflexões e perguntas, Jan Olav conta ao filho uma história real, acerca de uma personagem misteriosa: a garota das laranjas, desconhecida que surge por acaso pelas ruas de Oslo levando sempre nas mãos um saco enorme de laranjas, e que suscita um amor instantâneo e uma série de perguntas sem resposta na imaginação do jovem Jan Olav.



Um livro muuito interessante e com algumas questões filosóficas que nos fazem parar e pensar um pouco!
Bom...no mesmo dia em que terminei de ler o livro...fui com meus pais pra São Sebastião...onde o Djavan faria um show...e escutando a segunda música do show vi um resumo de tudo que li n'A Garota das Laranjas! Parece até que o Djavan fez a música depois de ler o livro...ou vice e versa...
o que é obvio...nao é verdade! Mas achei muito interessante como as artes se relacionam, independente de qual expressão escolhida!



Djavan - Eu Te Devoro

Teus sinais
Me confundem da cabeça aos pés
Mas por dentro eu te devoro
Teu olhar
Não me diz exato quem tu és
Mesmo assim eu te devoro
Te devoraria a qualquer preço
Porque te ignoro ou te conheço
Quando chove ou quando faz frio
Noutro plano
Te devoraria tal Caetano
A Leonardo di Caprio
É um milagre
Tudo o que Deus criou
Pensando em você
Fez a via-láctea
Fez os dinossauros
Sem pensar em nada
Fez a minha vida
E te deu
Sem contar os dias
Que me faz morrer sem saber de ti
Jogado à solidão
Mas se quer saber
Se eu quero outra vida,
Não, não.
Eu quero mesmo é viver
Pra esperar, esperar
Devorar você